segunda-feira, 30 de junho de 2014

Elevação inflacionária: o que o governo aponta como causa é apenas a ponta do iceberg


Este ano vem sendo marcado por uma série de greves e manifestações organizadas por grupos insatisfeitos com a precariedade da educação, saúde, transporte, segurança e a economia brasileira, que também clama por atenção, afinal o índice de inflação do Brasil, apesar de estar dentro do teto máximo de 6,5%, está longe de se reduzir à meta de 4,5%. De acordo com o IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA – 15) – que é divulgado mensalmente e calcula a variação média, entre um mês e outro, de produtos e serviços em 11 regiões metropolitanas – ficou em torno de 6,31%, nos últimos 12 meses acumulados, próximo ao teto da meta.

Principalmente em ano de eleição, inflação elevada é algo que o governo federal quer ver bem de longe para não se comprometer nas urnas. Sua preocupação já está refletida na taxa básica de juros (Selic), que foi elevada a 11%, como uma forma de atenuar a elevação inflacionária, enquanto nações como o México e o Peru possuem uma taxa básica que varia de 3,5% a 4%. Outra forma de tentar contornar a situação, mas não resolvê-la de fato, é culpar os fenômenos climáticos ou aqueles externos que acabam influenciando o cenário nacional, como fez o Ministro da Fazenda, Guido Mantega.

É vero que períodos de seca ou o fato da economia norte-americana ter se recuperado, ocasionando a desvalorização do real, são agravantes que podem complicar a economia brasileira. No entanto, há fatores internos bem consistentes para a alta dos preços: há tempos o governo federal deixou de investir em produtividade e passou a estimular cada vez mais o consumo por meio da concessão de créditos, gerando uma demanda maior que a oferta e consequente falta de produtos que tiveram seus custos elevados. A pesada carga tributária nacional é outro problema que contribui para prejudicar o avanço do setor industrial e sua competitividade no mercado.

Isso sem falar dos altos gastos que o governo está tendo com o funcionamento das termelétricas, já que as hidrelétricas estão operando muito aquém de sua capacidade em razão da falta de chuvas, reduzindo o abastecimento das suas reservas, as quais deveriam existir em maior quantidade e nos gastos para a construção dos estádios para a Copa, envolvendo grandes desvios de dinheiro, o que tornam os fatores climáticos e externos apenas a ponta do iceberg para explicar a elevação inflacionária. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A tão aguardada Copa 2014 chegou, mas há motivos para comemorarmos?


Praticamente na reta final dos preparativos para a abertura deste grande marco para o Brasil, a Copa do Mundo de Futebol, dia 12 de junho na Arena São Paulo, os governos fazem festa, já que sediarão o maior evento futebolístico do mundo pela segunda vez na história das Copas. Mas toda essa empolgação pode perder o fôlego se formos analisar o que rola nos bastidores da preparação para o torneio.

O orçamento é um dos itens que mais assusta, afinal ele ultrapassou os 2,1 bilhões de reais previstos em 2007 para serem gastos com a Copa – quando o Brasil foi eleito para sediar o torneio. Hoje o país já gastou mais de 9,4 bilhões de reais e esse número está se elevando ainda mais com a instalação das estruturas provisórias como imprensa, área vip, segurança, estacionamento e etc...

Então, mais uma vez, sobra para o governo arcar com estes custos extras bancados pelo contribuinte, obedecendo a uma mudança feita em 2009 nos contratos de construção dos estádios que delegou aos donos dos campos esportivos – nove pertencem ao governo – os gastos com as instalações provisórias, acrescentando assim um valor de 400 milhões de reais no já elevado orçamento.

Enquanto isso o governo federal comemora os benefícios que o torneio trará ao país. Obviamente não podemos negar que eles realmente existem. Segundo a agência de classificação de riscos Moodys, 3,6 milhões de turistas virão ao Brasil, contribuindo para fomentar as vendas do setor hoteleiro, da locação de veículos e do comércio de um modo geral, sem contar o lucro das empresas aéreas.

Mas o outro lado da moeda não é nada satisfatório, nem para os políticos e muito menos para a população, que revela sua insatisfação com os excessivos gastos com o torneio, realizando uma série de manifestações, as quais tendem a se agravar muito mais a partir do dia 12 de junho. E o caos não para por aí: a péssima estrutura do transporte brasileiro dificulta sua mobilidade, o que poderá paralisar o país na Copa.

O mesmo vale para os aeroportos, que não se mostram preparados para receber o grande volume de passageiros na época do evento, que durará 32 dias, sem falar na falta de segurança nacional. Há ainda os setores trabalhistas, como o industrial, que terão sua produtividade reduzida, já que muitos trabalhadores terão folga em dias de jogos do Brasil. Há mesmo motivos para comemorar o fato de nós sermos os anfitriões da Copa?

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O triste e obscuro mercado do tráfico humano



Trinta e dois bilhões de dólares! Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) essa é a incrível quantia movimentada por ano em todo o mundo como resultado de uma triste realidade que, em pleno século XXI, ainda acomete cerca de 2,5 milhões de vítimas pelo planeta, também segundo a ONU: o tráfico de seres humanos. Com intuito de enfatizar ainda mais esse assunto, a Igreja o elegeu como tema da Campanha da Fraternidade 2014: “Fraternidade e Tráfico Humano”, com o lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou”.

O tráfico humano envolve serviços como mão de obra escrava, exploração sexual e extração de órgãos para doação, sendo que, neste caso, a maioria das vítimas são crianças. De acordo com a ONU, do total da quantia gerada pelo tráfico humano, 85% vem da exploração sexual, cujas vítimas são, em sua maioria, mulheres. Muitas ainda meninas e adolescentes, que entram desde cedo para esta dura realidade e não conseguem sair nunca mais. São mulheres inocentes e pouco instruídas que acabam sendo influenciadas por aliciadores, sob a falsa promessa de se tornarem modelos internacionais e assim elas são levadas para outros países, onde são aprisionadas e forçadas a se prostituírem, ou são mortas.

Já a mão de obra escrava envolve uma série de razões para a sua manutenção ainda nos dias de hoje. Temos visto nos noticiários o número de empresas renomadas e detentoras de grande capital que submetem funcionários a excessivas horas de trabalho sob condições subumanas, visando lucros cada vez maiores. Porém, não são apenas estas organizações as responsáveis por este cenário, alguns veículos da mídia também possuem sua parcela de culpa ao não fomentar a divulgação desta exploração, geralmente por serem patrocinados por estas empresas exploradoras. Até nós acabamos nos responsabilizando quando adquirimos mercadorias destas companhias, sem ao menos refletir o que pode estar por trás da fabricação de determinado produto.

Sendo assim, denunciar os casos de tráfico humano, instruir as pessoas e mostrar a elas seu valor são cruciais para que elas não caiam na armadilha da exploração humana, pois, caso contrário, até 2018 teremos um comércio de seres humanos que superará o contrabando de armas e drogas, segundo a Divisão Contra as Drogas e o Crime da Organização das Nações Unidas (Unodc). 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

sábado, 22 de março de 2014

O País da Copa. Sem água e energia?


Dia 7 de março de 2014: apagão afeta a região de Campinas, deixando hospitais, universidades, delegacias e semáforos em estado crítico, devido à oscilação da energia. Segundo Furnas, empresa responsável pela geração elétrica, houve um desligamento acidental na subestação de Campinas. Dia 26 de fevereiro de 2014: aeroporto de Guarulhos fica 20 minutos sem energia – o suficiente para provocar um atraso dos voos, mesmo que não tenha sido mais do que meia hora – causado por curto-circuito em um cabo ligado a uma das subestações que alimenta o Terminal de Passageiros 3, em fase de testes, segundo informou a concessionária GRU.

Em ambos, a causa foi uma falha técnica. Porém, repetindo 2002, o Brasil vive uma conjuntura que poderá implicar em blecautes de grandes proporções que deixarão hospitais, escolas e delegacias de todo o país sem luz, não em virtude de pequenas falhas técnicas, como as citadas acima, mas à queda na geração de energia.

É sabido que nos últimos meses o país vem sofrendo um intenso calor alimentado por uma seca incomum para o período – que vem, inclusive, castigando as lavouras. Essa grande estiagem é prejudicial tanto para a produção agrícola quanto para a produção energética, já que o abastecimento d’água nos reservatórios das hidrelétricas – que respondem por 80% da geração de energia – estão muito aquém da capacidade ideal. Ademais, tal diminuição pode acarretar o racionamento de água, especialmente na região Sudeste, como é o caso do Sistema Cantareira – conjunto de seis represas responsáveis pelo abastecimento de oito municípios paulistas e quatro mineiros – cujo nível de água chegou ao mais baixo da história: 15,7%, em 11 de março de 2014.

A falta de investimentos urgentes por parte do governo e de campanhas educativas sobre o uso consciente da água, agravada pelo calor histórico no Brasil – chegando a registrar sensação térmica de 50oC ou mais em alguns estados, levou o povo a abusar do tempo gasto no banho e ao grande uso do ar-condicionado e/ou ventilador, provocando um gasto de energia muito maior do que o habitual – poderá deixar milhões de brasileiros sem água e também no escuro, em razão da deficiência das hidrelétricas.

Como em 2002, buscando suprir essa demanda, o governo vem recorrendo ao uso de das usinas termelétricas – responsáveis pela geração de eletricidade por meio de qualquer produto que gere calor, como óleo, gás ou carvão. O problema é que, comparadas às hidrelétricas, as termelétricas exigem um custo muito maior e são altamente poluidoras do meio ambiente. No momento o Brasil importa gás a 20 dólares o milhão de BTUs (unidade de medida) para mover as usinas movidas a gás, o que acarretará num reajuste de preços na conta de luz, afetando o bolso do consumidor final.

Em meio a todo este cenário alarmante, os governos atribuem toda a culpa da situação exclusivamente à natureza: no começo de fevereiro o Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, declarou haver “risco zero” de faltar luz. Dias depois, o governo federal alega que o Brasil poderia enfrentar dificuldades no abastecimento de energia devido ao nível de chuvas estar abaixo da média história.

Ou seja, se está chovendo pouco o ideal é apelar para que nossos amigos indígenas façam a dança da chuva e assim resolvamos o problema de abastecimento de água e energia do Brasil, correto? NEGATIVO. Parece que, para os governos, tanto federal quanto estadual, que nem mesmo gosta de citar a palavra “racionamento” (principalmente em ano de eleição), faltou abordar um importante componente que eliminaria qualquer apelo à dança da chuva: Investimento.

No caso da geração de energia, por exemplo, a falta de planejamento do governo federal para o investimento na construção de mais reservatórios é parte de uma série de fatores que não deixariam o país apenas à mercê da natureza. Falando em natureza, urge criar condições para a instalação de parques eólicos e placas de captação de energia solar em larga escala, barateando sua produção e aproveitando essa grande oferta desses recursos naturais e de baixo impacto ambiental. Investimentos em fontes alternativas de energia como a da Biomassa, produzida pela queima do bagaço da cana-de-açúcar, seria uma solução emergencial, já que, além de consumir recursos do solo, poderia implicar em alta de produtos derivados da cana.

No que se refere à transmissão, o blecaute de 2002 não serviu de lição: amarrado aos contratos de concessão do governo FHC, que previam investimentos por parte das concessionárias na ampliação do sistema em troca da alta tarifa admitida nas privatizações do sistema, faltou ao governo fiscalizar e cobrar a execução. Investimentos na manutenção das linhas de transmissão, em treinamento de funcionários e na ampliação do sistema elétrico se fazem urgentes. Em fevereiro deste ano um apagão, que deixou a população da Grande Vitória e do norte do Espírito Santo sem luz, aconteceu em decorrência de uma falha na subestação que poderá se repetir mais e mais com a ausência de manutenção nas usinas.

O atraso nas obras é outro problema: apenas em 2012, por exemplo, vinte e duas das 27 hidrelétricas em construção estavam atrasadas, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A principal razão era a falta de licenças ambientais. Por isso, atender às exigências legais e acelerar as obras torna-se essencial ou, caso contrário, ficaremos à apenas a mercê da chuva.

Concluindo, se diversas medidas já tivessem sido adotadas, incluindo antes de tudo um planejamento rigoroso e eficaz, não estaríamos correndo riscos de apagões e racionamento de água. Agora, o mais importante a fazer é o incentivo populacional à economia de água e energia, afinal não vamos querer ter um espetáculo de abertura da Copa do Mundo realizado à luz de velas não é mesmo?  E, pior ainda: hospitais, escolas e outros estabelecimentos no escuro.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

As aflitivas tentativas de salvar a Argentina e suas consequências para o Brasil


Se conseguir dólares proteja-os debaixo do seu colchão. É justamente essa a medida que vem sendo adotada por grande parte da população argentina, que mal consegue ter acesso ao dólar diante das restrições impostas pela presidente Cristina Kirchner.

Em 2001 a Argentina viveu uma profunda crise econômica que resultou no calote de uma dívida pública de U$ 100 bilhões na época. O país sofreu um grande abalo em seu caixa, já que o calote afastou investidores e empresas estrangeiras e dificultou a obtenção de empréstimos internacionais. Desde então o país não conseguiu financiar suas contas externas e suas reservas internacionais – que funcionam como um seguro em caso de crise – vêm diminuindo.

A atual ausência de dólares no mercado argentino disparou a cotação de modo que, no dia 23 de janeiro, o peso – a moeda oficial da argentina – sofreu uma queda de 11%, a pior desde 2002. No mesmo dia, as reservas internacionais perderam U$ 180 milhões, reduzindo-se a U$ 30 bilhões. Somente a título de comparação, as reservas brasileiras possuem um valor de U$ 370 bilhões.

A queda das reservas é um dos fortes fatores que contribui para que a presidente Kirchner venha colocando suas garras de fora desde que entrou no poder, em 2011, por meio de sua intervenção estatal. Temendo a maior fuga de capital estrangeiro, Cristina proibiu a venda de dólares, restringiu importações e compras no exterior e passou a cobrar uma taxa de 35% sobre o turismo estrangeiro.

Em janeiro último o governo da Argentina acabou surpreendendo ao liberar a compra de até U$ 2 mil por mês para trabalhadores que ganham 7200 pesos (equivalente a R$ 2,1 mil). Medida perigosa, pois uma liberação cambial despreparada resultará em maior desvalorização da moeda e elevação da inflação. Certamente trata-se de uma ação improvisada, diante de um cenário em que trabalhadores e empresários tentam burlar as restrições a cada nova proibição de compra do dólar, temendo o que estará por vir.

O Brasil pode começar a se preocupar com a alarmante situação de los Hermanos, já que 8% de suas exportações são destinadas unicamente para a Argentina, afetando o comércio bilateral, sem falar nos investidores estrangeiros que podem associar as fragilidades econômicas brasileiras às ocorridas no país do Maradona.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

domingo, 26 de janeiro de 2014

Um ano desafiador para o caixa brasileiro


Entramos em 2014! Agora o governo terá de se desdobrar para fomentar a realização da Copa, investir nos principais setores do país e ainda nas famosas campanhas eleitorais para as eleições, também neste ano. Com desaceleração da produtividade interna, aumento da inflação, recorde da Dívida Pública Federal e um PIB crescendo em torno de 2%, o ano de 2013 certamente não foi dos melhores para a economia nacional. Visando primeiramente a uma redução inflacionária, o governo optou por aumentar em 10% a taxa básica de juros (Selic).

Em novembro, após permanecer três meses em aceleração, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) reduziu, trazendo um leve alívio para o bolso dos consumidores, acarretando redução do custo de alimentos, como o arroz e o feijão.  Além da redução inflacionária, a manutenção da taxa de desemprego em baixa, a queda da inadimplência e a contenção de gastos por parte dos consumidores são fatores que apontam uma luz no fim do túnel para o crescimento econômico. Todavia, obstáculos não faltarão. A partir de agora, por exemplo, o Banco Central norte-americano, Fed, deixará de injetar dinheiro público nos bancos estadunidenses, como vinha fazendo desde a crise de 2008, pois acredita que os EUA já recuperaram fôlego da recessão.

A medida poderá afetar o Brasil em dois prismas: deixando de receber dinheiro estatal, os bancos dos EUA podem aumentar as taxas de juros e resultar na elevação do dólar que encarecerá os produtos importados pelo Brasil, podendo elevar novamente a inflação brasileira – a fim de amenizar este problema, o Banco Central daqui já vinha adotando um programa de intervenção no câmbio para conter a volatilidade do dólar. Outra consequência está no afastamento dos investidores estrangeiros do nosso país, já que a recuperação da crise pelos EUA acaba por fortalecer a moeda norte-americana e volta a despertar o interesse de investidores, que deixarão de se interessar pela economia brasileira com a desvalorização do real.

Enfim, em ano de eleição em que os governos habitualmente aumentam gastos em benefícios sociais buscando votos, será preciso investir exclusivamente no que for essencial e imprescindível – como infraestrutura, produtividade, saúde, educação, segurança – a fim de não piorar a situação. É a prova que política e economia não andam juntas.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Fim de ano: alerta vermelho para o bolso do consumidor, ou alívio, depende só de você!


Ao contrário do anunciado Espírito Natalino, o fim de ano costuma ser marcado por festas, família reunida e muitas compras. Mas nem tudo se insere no clima festivo, com a chegada dos meses de novembro e dezembro a indução ao consumo representa uma verdadeira facada no bolso do cidadão, favorecendo o aumento da inadimplência. Uma solução que vem sendo adotada pelos brasileiros a fim de resolver este problema é usar os recursos do 13º para quitar suas dívidas.

Uma pesquisa divulgada pela empresa Ipsos, em novembro de 2013, revelou que 24,5% dos brasileiros usariam o dinheiro do 13º para este fim. Acostumado a sofrer com o acúmulo de dívidas, o brasileiro parece estar aprendendo rápido. As dívidas representam uma verdadeira bola de neve pois, exceto nos casos de uma emergência para a qual a pessoa não está preparada, como uma doença, acidente ou um desemprego prolongado, o endividamento geralmente é o termômetro de que seus gastos não cabem na renda que usufrui, implicando numa verdadeira compra de dinheiro. Pois é isso o que o uso de mecanismos de crédito representa, você compra dinheiro para pagar o dinheiro que não tem.

Todavia, em 2013 a redução do número de inadimplentes brasileiros foi surpreendente. Segundo dados do Serasa Experian, somente no mês de setembro, por exemplo, houve uma redução da inadimplência de 10,8% em relação ao mesmo período de 2012. A pesquisa Ipsos também mostrou que neste ano, em comparação a 2012, um número menor de brasileiros usou o 13º para quitar dívidas (24,5 % dos entrevistados em 2013 em relação a 32,6% em 2012) e mais pessoas utilizarão o recurso para poupar (20,4% em 2013 em relação a 16,3% em 2012). Isso reflete maior preocupação do consumidor quanto à contenção e economia de gastos. E o brasileiro está aprendendo aos poucos como fazer isso.

O primeiro passo é pegar um caderno e elencar tudo aquilo que está devendo, para quem, quanto, quando vence. Se você tiver uma aplicação qualquer, como uma poupança, um CDB, uma renda fixa, etc, convém avaliar a possibilidade de sacar este dinheiro para quitar as dívidas, começando por aquelas sobre as quais incide maior taxa de juros – o cartão de crédito quando já está no rotativo, o cheque especial. Espero que dever para agiota não seja o seu caso. Se for, quite o mais rápido possível e fuja dele!

Anote também aquilo que tem a receber e as datas de recebimento. Salários, rescisões contratuais, enfim, tudo o que poderá usar para negociar e renegociar as dívidas. Use o que tiver nas aplicações para eliminar as dívidas vencidas, informe-se sobre as taxas de juros praticadas e sobre qual seria o abatimento para quitá-la. Há também a possibilidade de efetuar um empréstimo em outra instituição, cujos juros estejam menores do que aquela que esteja financiando a dívida. Pesquise na internet sites que orientam como renegociar dívidas, assim como instituições que dão orientações preliminares. Com todas as informações, dirija-se à instituição e tente a maior redução possível, e quando chegar a um acordo exija todas as condições tratadas por escrito e recibos dos valores pagos e quitados, discriminados.

Após a eliminação deste tipo de débito é fundamental efetuar um planejamento eficaz que possa preveni-lo de contrair novas dívidas. Como os consumidores tendem a gastar mais no fim do ano, eles precisam ficar atentos para comprar somente o que precisar, especulando preços e a qualidade dos produtos, e não agir por impulsividade, evitando gastos desnecessários. A pergunta que se deve fazer ao ver algo que salta aos olhos: EU EFETIVAMENTE PRECISO DISSO? Se sim, tem que ser agora ou posso fazer uma economia e comprar daqui a algum tempo? Mesmo assim, não seria melhor pesquisar onde comprar com melhores condições? Comprar de imediato, por impulso, via de regra conduz a uma compra mal feita e arrependimentos, principalmente quando logo depois encontra outro produto (ou o mesmo) com melhores condições.

Ao se planejar para efetuar uma compra – seja uma TV nova, uma troca de geladeira ou fogão, por exemplo – juntar o valor que seria pago pela prestação numa poupança durante o tempo em que você estaria pagando por um objeto que já estaria usando pode ser compensador, pois poderá, com o dinheiro todo na mão, negociar um bom desconto, evitar dívida, isso se não aparecer nesse tempo uma boa promoção ou um modelo mais novo e com melhores funções. Isso fará com que você não só evite comprometer o seu dinheiro futuro, como também estar daqui a um ano pagando por algo que já saiu de linha. Pense nisso.

Entretanto, antes de comprar, não se esqueça de que logo após as festas surgem as despesas pesadas: o IPVA do veículo, o IPTU, matrícula das crianças ou da faculdade, material escolar, seguro do veículo, são algumas delas. É fundamental colocar no seu planejamento espaço para quitá-las.

O uso desenfreado dos cartões de crédito é outro agravante para a inadimplência. Por isso, antes de usá-los, é preciso ter a consciência de que se possui o valor total para pagar a fatura a ser cobrada. “Apertar os cintos” é necessário, talvez até mesmo vender um bem para fugir da inadimplência total, pensando em reorganizar o orçamento para readquirir este bem depois, se realmente necessário. Nesse interím, procure instituições que orientem para um consumo equilibrado, assista a palestras, busque sempre orientação.

A queda do desemprego, a elevação de salários, mais condições propícias para renegociação das dívidas desde janeiro deste ano podem ter contribuído para a queda do endividamento, mesmo com um fator que esteve fortemente presente na gestão Dilma em 2013 para favorecer a contração de dívidas: a facilidade na concessão de créditos, que somente se reduziu com o aumento das taxas de juros visando combater a elevada inflação. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas
Colaboração: Sérgio Eduardo Nadur